Sobre O Autismo -

Pedro começou a falar sobre a rota da Seda, improvisando. Miguel desenhou o mapa do ginásio, traçando setas vermelhas para todas as saídas. Aos poucos, o balanço diminuiu. O zumbido virou silêncio.

O refeitório era um moedor de carne acústico. Bandejas batendo, garfos arranhando pratos de isopor, risadas estridentes, o mastigar molhado de 300 bocas. Para Miguel, cada ruído era uma agulha entrando pelo seu crânio. Ele tinha uma solução: ficava no canto, perto da janela, com fones de ouvido abafadores, desenhando mapas em um caderno. Mapas do corredor, do pátio, das rotas de fuga do colégio.

Pedro sentou ao lado, sem encostar.

Miguel pegou o caderno, virou na página do mapa do ginásio, e apontou para uma anotação minúscula no canto: "Saída de emergência atrás do tablado. Silenciosa. Ninguém usa. Tem um plugue de fone quebrado no chão — barulho de estática constante. Evitar."

— Miguel, vamos! — chamou Pedro, um colega paciente que, sem saber, era seu "tradutor social". Sobre o autismo

— Você quer que eu finja que estou dando uma palestra sobre mapas antigos? Assim a gente fica aqui no canto e ninguém enche o saco.

Ela não respondeu. Mas, no dia seguinte, um aviso silencioso apareceu no mural: "Intervalo alternativo: biblioteca, para quem precisa de menos barulho." Pedro começou a falar sobre a rota da Seda, improvisando

A coordenadora ficou em silêncio. Não era desinteresse. Era um nível de detalhe que ela jamais alcançaria.

— Não toca — sussurrou, com os olhos fixos no chão. O zumbido virou silêncio